Vingança do Destino
Personagens principais:
Nada pode ser mais fatal do que uma mulher pedindo por vingança. Ella Howestt, vítima de um acidente que quase a matou, é essa mulher. Enquanto estava no hospital, jurou se vingar de todos os Dominides. Do outro lado, Niko Dominides, um homem amargurado pelas artimanhas do destino. Depois de doze anos em que perpetrou sua vingança contra a família Dominides, o caminho de Ella volta a se cruzar com o de Niko. Desta vez, seria o triunfo do amor e da paixão ou ainda a vingança tão bem arquitetada por ela?
Capítulo 1
Alexis Dominides já nascera com a certeza de que era um homem para ser desejado. Quando criança, era deliciosamente adorável. Mesmo na adolescência, manteve intacta sua capacidade de encantar quem estivesse à sua volta. Cachos morenos em um rosto que mais tarde se revelaria belo em proporções harmoniosas e de uma masculinidade impactante. Aos vinte e cinco anos, com os cachos domados, estendia sua virilidade aos olhos negros, já profundamente conscientes das emoções que causava nas pessoas, especialmente nas mulheres e, no momento atual, em uma mulher em particular.
Além de cruelmente belo, era rico, muito rico. Uma combinação que não poderia deixar de lhe moldar o caráter. Era afável e gentil, mas com traços de arrogância explícitos no franzir das sobrancelhas quando algo não era do seu agrado ou quando seus desejos não eram atendidos. Paciência não era uma de suas virtudes. Aprendera desde cedo a ter suas vontades satisfeitas quando lhe conviesse, ou seja, imediatamente.
O desejo de sair da casa dos pais levou-o a cursar a universidade nos Estados Unidos. Ele sabia muito bem o que o pai esperava dele, pois, assim como seu irmão, Niko, quando este retornou para casa após o término de seus estudos, Alexis deveria integrar-se aos negócios da família, a companhia de navegação construída por seu pai.
Para completar, deveria, ainda, casar-se com uma moça grega, também rica, e cuja única pretensão fosse ocupar os lugares de esposa e mãe de um Dominides. A mulher perfeita, calada e obediente, como mencionava de forma depreciativa e contínua seu pai, acerca das mulheres em geral e, em particular, sobre sua própria esposa. E esta mulher já estava escolhida para ele: Yeda Teakis, filha de um dos amigos de negócios de seu pai.
Alexis aceitava seu destino, mas nada o impedia de realizar seus desejos e que, naquele momento, resumiam-se em seduzir uma garota, Ella Howestt. Embora não correspondesse ao seu tipo usual, era uma mulher extremamente desejável. Alexis tinha certeza que era apenas uma questão de tempo para que ela estivesse em sua cama. Em meio às tentativas infrutíferas de seu pai para arrastá-lo de volta à Grécia, conquistar aquela garota deu-lhe mais um motivo para adiar seu regresso.
Sabia, desde o primeiro instante, quando se conheceram, que ela não lhe era indiferente. Podia vislumbrar nos olhos dela o desejo incontido. Conheceram-se em um acidente de trânsito. A moto de Ella quase colidira com o carro esporte de Alexis. Na verdade, uma máquina sofisticada em alta velocidade que poderia tê-la matado. Por sorte, não fora atingida, a não ser pelo susto. Graças à habilidade de Alexis, o carro fora desviado, evitando um acidente cujo resultado seria fatal.
Alexis praguejava obscenidades em grego, exasperado com sua falta de sorte, quando viu o condutor da motocicleta retirar o capacete. Sua voz falhou e seus instintos ficaram alertas. Em questão de segundos a fúria o abandonou e um sorriso aflorou em seus lábios. Como se ele não acreditasse no que via. Como não havia percebido que era uma mulher? Estivera tão nervoso em manobrar o carro e evitar o acidente que não reparara direito no motociclista. Além disso, jamais uma mulher alta e de cabelos curtos chamaria a sua atenção, especialmente uma garota em jeans surrados e camiseta.
Exceto aquela. Ela era linda! Um rosto de traços firmes, porém suaves, delicadamente alongado, e um nariz fino e atrevido. Uma pele que reluzia, sem artifícios; lábios convidativos. O cabelo era de um tom castanho escuro, farto, apesar de curto. Era sensualmente feminina. Acostumado às mulheres e dotado de uma vida sexual intensa, Alexis imaginou-a deitada em sua cama. Até que o dedo indicador dela tocasse em seu peito, interrompendo o devaneio sexual no qual, por poucos segundos, estivera mergulhado.
___ Acorde, sou eu quem deveria estar em choque aqui! Você quase me matou com esse seu brinquedo de menino rico – dizia ela apontando para seu reluzente e impecável carro esporte preto. Ainda com a adrenalina correndo pelo corpo e atordoado com a visão à sua frente, Alexis só voltou a si quando a ouviu dirigir-se a ele, com uma voz firme e rouca. Ela tinha expressivos olhos castanhos que, naquele momento, tinham adquirido um tom esverdeado, ou seja, ela estava furiosa.
Desde o início, Alexis sabia que com Ella deveria usar outras estratégias. Ela era diferente das garotas com quem geralmente se relacionava. Garotas de uma noite. Ella não era assim. Era estudiosa e trabalhadora e fazia questão de manter sua independência. Com ela passou a frequentar casas de hambúrgueres e pizzarias lotadas de estudantes que buscavam um lugar barato para comer. Geralmente dividiam a conta. Ela ainda mantinha certo distanciamento e o relacionamento já estava se estendendo bastante. Alexis gostava dos momentos que passavam juntos, mas sabia que seu tempo era curto. Logo mais teria que voltar para casa. Por isso, conquistá-la agora era seu principal desejo. Sugerira que ela viesse passar o final de semana com ele e Ella havia aceitado o convite. Enfim, poderia tê-la em seus braços antes de voltar para casa.
Alexis não via mal algum em se divertir com garotas. Elas o aceitavam do jeito que ele era, descompromissado, e ele nunca abria sua intimidade com elas. Com ninguém. Assim como Niko, aprendera a ser independente tanto física quanto emocionalmente. Sabia que os pais o amavam à maneira deles. Seu pai glorificando-o como o filho favorito; sua mãe sempre se contendo em relação aos sentimentos. Como se tivesse medo de abraçá-lo, de tocá-lo, especialmente quando Niko estava presente.
Com Ella sabia que havia quebrado algumas de suas regras nos seus relacionamentos. Era o relacionamento mais longo que já tivera até então. Além disso, envolvera-se demais com ela fora da cama, o que poderia dar a ela a impressão de algo mais sério. Aliás, era o primeiro relacionamento que tinha onde a cama não viera em primeiro lugar. Era preciso, em algum momento, deixar isso claro para Ella, a fim de evitar uma cena ou uma ruptura bem a contragosto do que lhe era usual.
Foi com estes pensamentos que Alexis entrou na livraria onde Ella trabalhava. Ao vê-la, tão sorridente e bonita, rapidamente afastou-os, dando espaço somente ao desejo que sentia por ela. Importava, no momento, apenas o fato de que ela seria dele.
Niko Dominides adentrou o saguão do imponente prédio da companhia de navegação administrada por seu pai, seguido, discretamente, por dois de seus seguranças. Os olhares dos presentes voltavam-se para ele à medida que se dirigia aos elevadores. Não era um homem bonito à primeira vista. Suas feições eram duras demais para isso. Mas era alto, muito alto, e, além disso, sua rotina contínua de exercícios lhe moldara a força dos ombros largos; o corpo definido como o de um atleta. O rosto esculpido, liso, de linhas retas, exalava controle, mas também sensualidade. O cabelo negro, curto, contrastava com os olhos de um azul profundo, porém, frios. Vestido em um terno escuro feito sob medida e totalmente no domínio de seus atos, definitivamente, representava uma imagem difícil de se esquecer.
Dirigiu-se à sala de seu pai sem demonstrar a irritação que o acometia. Arestos Dominides estava furioso ao telefone quando o chamara. Típico de seu pai. Nunca, em seus quase trinta anos como primogênito, Niko obtivera dele demonstrações de afeto. As críticas, por outro lado, eram frequentes. Nem o fato de ter se esforçado em ser o melhor em praticamente tudo, da universidade aos cargos que ocupara na empresa da família, havia mudado a atitude dura de seu pai em relação a ele.
Contudo, Arestos Dominides o respeitava, mesmo que a contragosto, já que sob a direção de Niko os negócios prosperavam. E nada acalmava mais os ânimos de seu pai do que alguns milhões de dólares a mais em suas contas. Assim, Niko era, inexplicavelmente, o filho tolerado de seu pai.
Não se pareciam em nada, nem mesmo fisicamente. Exceto na condução dos negócios. Ambos eram implacáveis com seus adversários. Embora Niko geralmente desprezasse as atitudes nada cordiais de seu pai em relação aos subordinados e a forma desonesta com que lidava com as leis. Arestos Dominides, ou Ari, como todos o conheciam, nascera pobre, filho de pescadores. Migrou para Atenas em busca de trabalho e dinheiro. Ninguém sabe como enriqueceu, mas já era considerado um homem rico quando se casou com Eleni Allas, filha única de um milionário inescrupuloso que lhe garantiu, além do aumento da fortuna, posição social privilegiada.
A mãe era o retrato da esposa submissa de um homem tirano e rude. De baixa estatura, longos cabelos pretos sempre presos no alto da cabeça, num coque apertado. Uma mulher calada e sem vida. Niko não conseguia se lembrar de um só momento em que sua mãe demonstrara vida e alegria. Exceto, talvez, na convivência com Alexis, seu irmão mais novo. Mesmo assim, seus gestos eram contidos, como se seus filhos não lhe pertencessem. Eram evidentes seu desapego a tudo que se resumisse à casa e ao casamento com Arestos Dominides, incluindo o próprio Niko.
Com o passar do tempo, as atitudes do pai e o distanciamento da mãe tornaram Niko indiferente às emoções. Não lidava com sentimentos. Os anos de negligência paterna sepultaram de vez qualquer envolvimento emocional de Niko com as pessoas à sua volta, incluindo a mãe e o irmão.
___ Está atrasado! Onde esteve? — Disparou o pai enquanto Niko entrava na sala, localizada no último andar do prédio da companhia.
___ Bom dia, Ari. – Ironizou Niko, como se pudesse ensinar boas maneiras a seu pai.
Ari jogou um conjunto de papéis sobre a mesa, diante de Niko. ___ Aí está a resposta para o fato de seu irmão não vir para casa. Ele está envolvido com mais uma garota estrangeira. Esse é o relatório de um de meus homens de confiança sobre as atividades dele nos Estados Unidos.
Niko sequer se deu o trabalho de folhear os papéis. Continuou em pé, de frente para seu pai, encarando-o. Ari tinha o hábito de levantar as grossas e escuras sobrancelhas quando algo saía de seu controle. Um contraste com os cabelos quase todos grisalhos. Nem todo o seu dinheiro fora suficiente para lapidar-lhe boas maneiras. O rosto, já marcado pelos sulcos de uma velhice precoce, exibia claramente um homem pouco afeito à conversação, de modos nada gentis. Arestos Dominides era poder e controle, além de força e astúcia.
Estava vestido com rigor, mas o corte perfeito do terno risca de giz brigava com seu corpo avantajado. A pele cor de oliva se sobressaía, destacada pela camisa branca, um indício não somente de seus antepassados gregos, mas das muitas horas de trabalho ao sol antes de fazer fortuna. Com indisfarçável prazer, ostentava abotoaduras de ouro cujo hábito de gesticular e erguer as mãos indicavam seu brilho, como um símbolo de sua riqueza.
Niko conhecia bem o irmão para saber que aquela era mais uma de suas aventuras. Na sua visão, Alexis não era apenas o irmão mais novo, era também irresponsável e inconsequente. Apesar de já ter finalizado a universidade nos Estados Unidos, sequer cogitava voltar e assumir suas responsabilidades ao lado da família e de sua noiva. Era em vão a pressão de seu pai para que voltasse, embora as aventuras de Alexis continuassem a ser financiadas com o dinheiro paterno. Pelo menos, até o momento.
___ Não será a primeira nem a última de suas conquistas. Aliás, já sabíamos que a recusa de Alexis em voltar para casa teria algo a ver com uma mulher. — Respondeu-lhe Niko. ___ Não entendo por que…
___ Porque ele já deveria estar aqui, ao meu lado, assumindo os negócios da família e preparando-se para o casamento! Interrompeu-lhe, bruscamente, o pai, levantando-se. ___ Ele deve voltar imediatamente! A família de Leon Teakis já iniciou os preparativos do noivado. Agora é oficial!
Niko continuou de pé, à frente de seu pai e de seu temperamento instável. Ari estava praticamente gritando, o tom de sua voz alterado, os gestos nervosos.
___ Como pode ter tanta certeza de que Alexis aceitará se casar com Yeda Teakis?
___ Preste atenção, Niko… — Como se Ari não estivesse falando alto o bastante e Niko fosse uma criança teimosa, e não o homem determinado que era. ___ Este casamento já está selado desde que Alexis e Yeda eram adolescentes. Um acordo entre as famílias Dominides e Teakis nos trará excelentes oportunidades de negócio. Não vou perder esta chance por causa das frivolidades de Alexis. Leon Teakis me questionou por que Alexis ainda estava na América se já havia terminado a universidade. — Ari praguejou algumas obscenidades e continuou a despejar sua raiva sobre Niko. ___ Tudo por causa das vagabundas com as quais Alexis se envolve! Eu não quero meu filho envolvido com qualquer mulher que não seja a filha de Leon Teakis. Depois do casamento ele pode fazer o que quiser! Por ora, basta de aventuras!
“Meu filho!” Interiormente, Niko torceu os lábios, sua própria irritação aumentando. Não tinha sido sempre assim? Como se Ari tivesse apenas um filho, Alexis. Cinco anos mais novo do que ele, era o filho adorado de seu pai. Tanto quanto ele, Niko, era o filho preterido.
O noivado entre Alexis e a filha de Leon Teakis, Yeda, havia sido decidido entre as famílias por conta da amizade entre os dois jovens, mas também devido aos interesses comerciais tanto dos Teakis quanto dos Dominides. Não se fugia de um compromisso desses. Famílias e fortunas eram preservadas por meio de uniões desse tipo. Nesse aspecto, com seu pai pouco se importando com ele, Niko estava satisfeito por não ser pressionado a se casar, embora fosse o filho mais velho. Niko não tinha tempo nem disposição para cuidar de uma esposa. Sabia que em algum momento deveria se ocupar de um casamento e filhos. Como Alexis, seguindo a tradição e encontrando uma boa moça grega.
Yeda Teakis era a noiva perfeita. Quieta, introvertida, indulgente. Fisicamente, não era um tipo que atraía os homens. De estatura baixa; magra, de ossos salientes. Cabelos pretos longos e lisos. Parecia uma cópia da jovem que sua mãe deveria ter sido. Nada comparado ao tipo que provavelmente atraía Alexis. Mais um casamento fadado ao fracasso emocional, pensou Niko, consciente da realidade do casamento de seus pais e ciente do que estava por vir na vida de Alexis. Enfim, ele não faria diferente, conhecia bem as regras do jogo. Uma esposa discreta e calada dentro de casa e amantes ocasionais fora dela.
___ Quero que vá a Nova York, acabe com esse relacionamento e o traga de volta! — Gritou Ari, interrompendo o breve devaneio de Niko. ___ Faça o que for preciso. Ofereça dinheiro à garota, seduza-a, mas livre-se dela. E traga Alexis com você. Não volte aqui sem ele! Basta!
Arestos Dominides tornou a sentar-se. A sessão estava terminada, concluiu Niko, ao vê-lo voltar ao trabalho, como se nada houvesse ocorrido. Sequer despediu-se do pai. Como se os Estado Unidos fossem próximos da Grécia. “Vá lá e resolva!”, como se ele fosse um menino de recados. Mas tinha que ser feito. Nisso o pai tinha razão. A união das famílias Dominides e Teakis já estava decidida e seria um escândalo se não ocorresse. Ainda mais diante das circunstâncias apresentadas por Ari. Imediatamente, ligou para sua secretária e pediu-lhe que desmarcasse seus compromissos dos próximos dois dias. Conversou brevemente com o piloto de seu jato particular, encontrou-se rapidamente com seus assessores e, em poucas horas, estava a caminho de Nova York.
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